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Uma Lição Para Além dos Palcos

Postado em em Crônica por Mauro Medeiros

Para escrever esta coluna, pensei em como iniciar, sobre quem falaria, o teatro é tão extenso, toda a sua história os “Gregos” nossa eterna fonte, pensei também em Shakespeare, Brecht, Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Antunes Filho, mas também gostaria de escrever sobre um autor que conheci, cheguei a trabalhar em algumas de suas peças e acompanhei vários de seus projetos.

Falo de Zeno Wilde um homem de teatro, um dramaturgo como poucos, que nos deixou uma obra pungente, forte, intensa, rica em situações extremas, de personagens deserdados, como em “Blue Jeans – Uma Peça Sórdida”, texto que alavancou a carreira do autor que sempre fez um exame obsessivo do universo marginal, os excluídos, os “sem-saída”, em uma temática realista.

A angústia eterna daqueles que vivem à margem da vida, uma marca que lhe trouxe vários prêmios, com “O Meu Guri”, “Uma Lição Longe Demais”, “Quem Te Fez Saber Que Estavas Nu?”, “Sabe Quem Dançou?”, “Salve O Prazer – Assis Valente” e outros tantos trabalhos. Uma maestria com a escrita, numa carpintaria teatral aliada a busca de soluções aos problemas, de apurado acabamento técnico e artístico.

Foi ele um mestre em minha iniciação em dramaturgia, corrigiu e me apontou soluções em meu primeiro texto “Das Vezes Que Mamãe Chorou”. Zeno era gentil, talentoso, um dramaturgo que buscava formar e informar outros profissionais. Esteve à frente de alguns núcleos de teatro, como o “Núcleo da Lição” que veio logo após a montagem premiada de “Uma Lição Longe Demais” dirigida por Fauzi Arap no ano de 1986, o “Grupo Força Tarefa” de montagens como “Pasolini, A Segunda Morte de Pedro e Paulo” e em “Exagerei no Rímel”, montagem que abordava o humor negro, dando a Daniel Gaggini seu primeiro trabalho como diretor. Esse mesmo texto fora dirigido anos antes por Marcelo Marcus Fonseca, marcando também a sua estréia na direção, um talento, que estreou como ator em “Anjos de Guarda” em 1987, outra peça que Zeno além da autoria assinava também a direção.

Zeno tinha também verdadeira paixão pelo cinema, e Luchino Visconti era um de seus diretores prediletos. Lembro-me ainda de uma longa conversa que tivemos após uma sessão de “Rocco e Seus Irmãos”, Zeno não se cansava de falar sobre algumas seqüências do filme, coisa que recordamos mais tarde em sua última direção, na qual reunia textos de Pier Paolo Pasolini e criou o mais belo trabalho de que participei, “Pasolini, A Segunda Morte de Pedro e Paulo”, Zeno foi brilhante, parecia mesmo se despedir, mostrava ali seu amadurecimento, passeava leve sobre o texto amarrando muito bem cenas e situações, dirigindo os atores com firmeza, marcando o espaço cênico, recriando um universo e “atmosferizando” o espetáculo, conduzindo a todos em sua viagem ao seu teatro e por suas histórias.

Zeno Wilde nos deixou um legado, em que poderemos sempre analisar um significado, uma preocupação concluindo-se numa tela hiper-realista, um passeio poético num teatro feito com rigor, uma linguagem a ser entendida por aqueles que procuram mais do que a simples diversão nas salas de espetáculo.

Zeno Wilde partiu no ano de 1998 para “outros palcos”, 51 anos após a sua estréia nesse lugar em que não sabemos ainda para onde nos conduzirá.

Comentários

  1. Edson Gory disse:

    Também conheci Zeno, numa época que ministrou uma oficina em São José dos Campos e nosso contato se estendeu quando me mudei para São Paulo, em 1993.
    Neste período, frequentava as leituras dramáticas na Gastão Tojeiro.
    Era uma pessoa talentósíssima!
    Atualmente tenho intenção de montar o texto: Sabe quem dançou?
    Você sabe como faço com relação aos direitos?
    Tem contato com a Giulia, a filha dele?
    Um abraço, aguardo seu retorno se possível.

  2. Bruno disse:

    Gostaria do contato do(a) detentor(a)dos direitos da obra de Zeno Wilde. Você pode me ajudar?
    Obrigado,
    Bruno

  3. Dânny Gris disse:

    Estou ha quase dez anos em busca dos detentores dos direitos autorais d Uma Lição Longe Demais. Poderias me ajudar nessa empreitada?
    Grato
    Dânny Gris

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