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Rota do Desespero

Postado em em Episódios por Mauro Medeiros

Conto sobre um homem morto:

Foi encontrado morto nesta manhã um homem em seu apartamento, debruçado sobre algumas anotações em uma mesa, o notebook ainda estava ligado, na tela provavelmente o que seria seu último texto, no qual expressava o desejo de que nada ali fosse lido ou publicado. Nas palavras seguintes descrevia de maneira poética como teria sido a sua vida, ou como gostaria que fosse.
Em alguns livros foram encontradas anotações, suas provavelmente, em obras de autores já conhecidos e consagrados, como; Willian Shakespeare, Rainer Maria Rilke, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Castro Alves, Gabriel Garcia Marques, entre outros.
O local era simples, não havia luxo, pouca mobília, muitos livros, um sofá antigo em couro, uma poltrona grande, também em couro já bem puído, uma luminária de mesa, que estava acesa.
O resto da bebida deixada no copo e a garrafa de uísque vazia indicava uma última noite de embriaguez.
Causa da morte ainda desconhecida. Nenhum vestígio de que outra pessoa havia estado ali em sua companhia.
Seu corpo foi encontrado nas primeiras horas da manhã, pela diarista, uma senhora de aproximadamente sessenta anos, que era a responsável pela faxina semanal naquele apartamento. Assim que ela o viu imóvel sobre a mesa, comunicou imediatamente ao porteiro e este ao zelador do edifício, que por sua vez ligou para a polícia antes mesmo de comunicar ao síndico e de ter visto o corpo.
Cheguei ao local quase que ao mesmo tempo em que a polícia! Esta é uma das poucas vantagens de se trabalhar com reportagem policial. É o terceiro defunto que vejo só nessa semana. Esta é uma das muitas desvantagens em meu trabalho, quase que se compara ao de um legista nesse ponto.
Esse cheiro de morte muito me incomoda, principalmente quando aliado a solidão, penso por vezes em como será quando chegar o meu momento! Imagino a minha vida como a daquele homem: tela do notebook garrafa vazia diarista anotações em livros… Deve haver alguma pornografia escondida por ali, ou em seu computador, assim como há no meu.
O sexo pago, horas perdidas em salas de bate-papo, alguma droga, remédios para dormir, ou ficar acordado… Solidão, desespero e perversão!

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