RSS Feed
out 10

Oh país inquieto

Postado em em Crônica por Mauro Medeiros

Oh país inquieto!
Quem o chama agora, o poder que pretende se manter em projetos que levam boa parte de contentamento da população, ou o retorno daqueles que se dividem pela outra metade?
Olho para as pessoas nas ruas, em seus locais de trabalho, ouço as discussões, nos bares, nas mesas, nos restaurantes em cada ponto ou em uma esquina. Ouço inflamados os discursos de tantos que se parecem com os políticos em palanques, ouço os que defendem e os que acusam, este ou aquele!
Oh país inquieto!
Antes era o grito pelo futebol! As palavras exaltadas que depois foram caladas, bandeiras arreadas, sem o barulho das buzinas dos carros, das vozes de tanta gente. Passou, assistimos ao final calados, sem torcer, sem gritar, sem bater no peito “sou campeão”!!!
Oh país inquieto!
Uma multidão, ainda que sem saber ser maioria, decidiu mudar o que parecia estabelecido e levar a disputa adiante! E agora uns gritam daqui, outros dali e tentam dividir a atenção dessa gente, dessa multidão de outro.
As propostas para agora e para o futuro podem ser adiadas, modificadas, diferentemente das prometidas em início.
Quem poderá agradar melhor àquele que aguarda indeciso?
Qual a melhor opção?
Já houve um tempo de OPTAR!
Já houve um tempo de COLLORIR!
Já houve um tempo REAL!
Oh país inquieto!
Busca a verdade sem manchar seu nome, busca além do instante, seu gozo permanente, busca acabar com as injustiças, busca tirar das ruas essa gente que sofre sem moradia, perdidas em vícios travestidos de prazer.
Busca além do OPTAR, do COLLORIR, e do REAL!
Busca a verdade, que por um breve momento fez calar o grito daqueles que já se colocavam acima da vontade de cada um.
Busca oh pais inquieto a sua voz!

ago 6

É Proibido Fumar

Postado em em Crônica por Mauro Medeiros

Entra em Vigor Lei Antifumo no Estado de SP

Nova lei prevê severas punições aos estabelecimentos, bares, restaurantes, hotéis, áreas comuns de condomínios… Enfim, bastou ter uma parede e um teto não se pode mais fumar, até os tão conhecidos fumódromos das empresas privadas estão proibidos, é só fazer fumaça em local fechado e estará infringindo a lei.
Quem quiser fumar que o faça ao ar livre, na rua, mas cuidado com quem vem atrás, pode ser um “patrulheiro” desavisado que irá falar poucas e boas, pois muita gente ainda não sabe detalhes da lei.
É claro que campanhas foram feitas e o já tão aclamado Dr, Drauzio Varella foi o grande símbolo e, o que se pode chamar de “garoto propaganda”, para dar mais credibilidade ao ato.
As campanhas foram bem educativas e estiveram em todos os meios de comunicação alertando dos malefícios do tabaco, mas o que não ficou muito claro e por isso fica difícil também de explicar aqui, foi em relação aos detalhes da legislação.
Pois, muitos fumantes sentiram-se excluídos, e seguem em seus questionamentos até mesmo sobre discriminação.
Mas quanto a isso cabe um lembrete:
“O fumante não está proibido de frequentar lugares fechados, desde que não fume, isso não é uma escolha do Estado, como muitos estão falando e reclamando (em sua maioria fumantes), mantendo-se assim o direito de ir e vir, não haverá um fiscal apalpando ninguém nas entradas de clubes, bares e restaurantes, como se fossem seguranças à procura de armas escondidas ou maços de cigarros, ninguém será discriminado, que fique bem claro”.
Caberá às empresas, estabelecimentos e todos anteriormente já citados, o real cumprimento da lei, pois multas severas e a perda da licença para funcionamento estão previstas como punição.
Não há pena determinada ao fumante, mas nem por isso ninguém vai poder acender o cigarro debaixo da mesa, pois a fumaça sobe, e com a intenção de defender o fumante passivo, aos olhos da lei em local fechado é proibido fumar.
E tão logo soem as doze badaladas desta sexta-feira, cerca de 500 agentes da nova lei antifumo, sairão às ruas, para multar os estabelecimentos que permitirem a prática do tabagismo em local fechado.
“500 agentes contra o fumo”, é um efetivo bem reduzido em se tratando de uma lei estadual, mas quem sabe, podem ser semelhantes aos “300 de Esparta”!
Ficam liberados de cumprir a nova legislação os locais de culto religioso em que nos rituais faça parte a prática do tabagismo, as tradicionais charutarias destinadas ao fumo e instituições de saúde, em que os pacientes sejam autorizados por seu médico a fumar.
Ou seja, escolha a sua turma e faça como bem preferir, acredito que muita gente irá se converter a alguns cultos e “dar passagem” para um “Caboclo” ou “Preto Veio”…

abr 18

Uma Lição Para Além dos Palcos

Postado em em Crônica por Mauro Medeiros

Para escrever esta coluna, pensei em como iniciar, sobre quem falaria, o teatro é tão extenso, toda a sua história os “Gregos” nossa eterna fonte, pensei também em Shakespeare, Brecht, Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Antunes Filho, mas também gostaria de escrever sobre um autor que conheci, cheguei a trabalhar em algumas de suas peças e acompanhei vários de seus projetos.

Falo de Zeno Wilde um homem de teatro, um dramaturgo como poucos, que nos deixou uma obra pungente, forte, intensa, rica em situações extremas, de personagens deserdados, como em “Blue Jeans – Uma Peça Sórdida”, texto que alavancou a carreira do autor que sempre fez um exame obsessivo do universo marginal, os excluídos, os “sem-saída”, em uma temática realista.

A angústia eterna daqueles que vivem à margem da vida, uma marca que lhe trouxe vários prêmios, com “O Meu Guri”, “Uma Lição Longe Demais”, “Quem Te Fez Saber Que Estavas Nu?”, “Sabe Quem Dançou?”, “Salve O Prazer – Assis Valente” e outros tantos trabalhos. Uma maestria com a escrita, numa carpintaria teatral aliada a busca de soluções aos problemas, de apurado acabamento técnico e artístico.

Foi ele um mestre em minha iniciação em dramaturgia, corrigiu e me apontou soluções em meu primeiro texto “Das Vezes Que Mamãe Chorou”. Zeno era gentil, talentoso, um dramaturgo que buscava formar e informar outros profissionais. Esteve à frente de alguns núcleos de teatro, como o “Núcleo da Lição” que veio logo após a montagem premiada de “Uma Lição Longe Demais” dirigida por Fauzi Arap no ano de 1986, o “Grupo Força Tarefa” de montagens como “Pasolini, A Segunda Morte de Pedro e Paulo” e em “Exagerei no Rímel”, montagem que abordava o humor negro, dando a Daniel Gaggini seu primeiro trabalho como diretor. Esse mesmo texto fora dirigido anos antes por Marcelo Marcus Fonseca, marcando também a sua estréia na direção, um talento, que estreou como ator em “Anjos de Guarda” em 1987, outra peça que Zeno além da autoria assinava também a direção.

Zeno tinha também verdadeira paixão pelo cinema, e Luchino Visconti era um de seus diretores prediletos. Lembro-me ainda de uma longa conversa que tivemos após uma sessão de “Rocco e Seus Irmãos”, Zeno não se cansava de falar sobre algumas seqüências do filme, coisa que recordamos mais tarde em sua última direção, na qual reunia textos de Pier Paolo Pasolini e criou o mais belo trabalho de que participei, “Pasolini, A Segunda Morte de Pedro e Paulo”, Zeno foi brilhante, parecia mesmo se despedir, mostrava ali seu amadurecimento, passeava leve sobre o texto amarrando muito bem cenas e situações, dirigindo os atores com firmeza, marcando o espaço cênico, recriando um universo e “atmosferizando” o espetáculo, conduzindo a todos em sua viagem ao seu teatro e por suas histórias.

Zeno Wilde nos deixou um legado, em que poderemos sempre analisar um significado, uma preocupação concluindo-se numa tela hiper-realista, um passeio poético num teatro feito com rigor, uma linguagem a ser entendida por aqueles que procuram mais do que a simples diversão nas salas de espetáculo.

Zeno Wilde partiu no ano de 1998 para “outros palcos”, 51 anos após a sua estréia nesse lugar em que não sabemos ainda para onde nos conduzirá.